"pequena caixa de madeira...", ou, "instrumento musical da família das cordas...", ou ainda, "instrumento musical
cujo som é obtido através do atrito de um arco...". Inúmeras são as descrições que vi até hoje e não me atrevo repetir.
Quero falar daquilo que nunca ninguém falou e gostaria de fazê-lo de forma especial.
O violino é um pequeno instrumento capaz de transportar as mais remotas dimensões dos sentimentos. Ele com seu
arco é capaz de tocar o fundo da alma. Aliás, o violino também tem alma.
Os sons obtidos de suas cordas transformam sentimentos abstratos e invisíveis que fazem parte somente do mundo
daquele que o detém, em ondas mecânicas captadas pelos ouvidos de tantos quantos estiverem ao seu alcance,
fazendo-se entender no coração desses. O violino é um materializador de emoções. Em mãos hábeis ele se torna o
porta-voz de quem o manuseia. Um universo de sons e melodias é produzido por ele, e saber tocá-lo é o mesmo que
comunicar em uma linguagem que somente a alma pode interpretar.
Sinto como se ele possuísse personalidade própria. Quando estão reunidos numa orquestra evidenciam sua força;
sozinho, sua beleza. Ora torna-se melancólico, ora colérico. Sua expressividade é fascinante. Com ele nós homens
somos capazes de produzir chuva, sol, ventos e desta forma alegrando ou entristecendo seus ouvintes. Somos capazes
ainda de hipnotizar uma platéia que se entrega as delícias e ao prazer de cada nota produzida. Esta mesma platéia
retribui quase que em um delírio coletivo, manifestando-se através de aplausos e gritos de agradecimentos.
Ele é um instrumento perigoso... pode manipular os sentimentos. Não é fácil domá-lo, pois é selvagem. Apesar de sua
aparência refinada, elegante e aristocrática é um selvagem. Quem já tentou domá-lo que o diga. Muitos são os que se
apaixonam, porém ele não se deixa conquistar. Entendê-lo demanda anos e anos de dedicação. Entregamo-nos por
completo e ele não se importa conosco. Passamos horas e horas, dias e dias de estudo.
O violino é um ingrato. Algumas vezes é preciso deixá-lo, como numa demonstração de orgulho e amor próprio,
porém sem efeito. Ele nunca se rende e logo voltamos a colocá-lo em nossos braços. Morremos de saudade e ele parece
saber disto. Quais segredos ele carrega junto a si? Por que é tão difícil compreendê-lo? Ele sempre esconde uma
surpresa. Por mais que pareça que progredimos na difícil arte de domesticá-lo, ele, vez ou outra nos mostra quem na
verdade tem o controle da situação e ele faz isto da maneira mais irritante possível. Nos faz sofrer quando grita naquela
"arranhada" que produz por um golpe de arco mal dado. Lógico que não foi nossa intenção, mas ele faz de propósito,
ou quem sabe seja parte de sua natureza, mais nada.
Algum dia deixar-se-á vencer? Conseguirei compreendê-lo? Tenho a impressão que no passado alguns conseguiram ou
chegaram muito perto. Bach, Vivaldi, Paganini, Brahms... Não foram muitos. Foram poucos. Talvez seja assim mesmo.
De tempos em tempos ele deva abrir sua exceção, deixar-se conquistar, compreender, domar. Enquanto isto ele continua
me encantando e seduzindo tantos outros pela sua voz melancólica a continuar aquecendo-o junto aos braços.
Cléber Fernandes
Mont Saint Aignan – França 04/05/2004